A Mistificação da Competitividade do Mercado por Wayder Gallagher

Sobre o Evento

INTRODUÇÃO

 
Não há concorrência no mercado. O trabalhador em seu papel de consumidor sente-se psicologicamente preenchido pelas prateleiras cheias, mesmo que as diferenças entre produtos semelhantes em conceito e uso sejam mínimas. Dever-se-á compreender que a competitividade é estritamente superficial e que, a questão, como é acontecido em outros vários fenômenos sociais, a sociedade civil é alheia a eles e suas consequências, dessarte a sua impressão [da competitividade] é percebida por uma maioria, mesmo que seja, na realidade, uma película finíssima engendrada no mercado pelos oligopólios.

Por delta motivos, há uma tentativa de despersonificar o caráter social da mercadoria, assim faz-se parecer que não são os trabalhadores aqueles que produzem os objetos, mas sim as indústrias, dizem - os economistas clássicos e neoliberais;  a “mão-invisível” do mercado, metáfora criada pelo economista Adam Smith (Kirkcaldy, Escócia, 5 de junho de 1723 - Edimburgo, Escócia, 17 de julho de 1790) para explicar como o mercado livre se autorregula de forma natural,  controla o que fazemos e compramos, dizem os economistas clássicos e neoliberais - mas esquecem do quanto o mercado é imaterial, inanimado, é, portanto, um conglomerado de decisões de uma minoria capitalista tomando suas próprias decisões; o mercado não é “coisa em si” - Ding an sich, em alemão, em tocante a Kant (22 de abril de 1724, Königsberg - 12 de fevereiro de 1804,Königsberg, Prússia) em sua obra-prima a Crítica da Razão Pura (1781) - como querem [os economistas clássicos e neoliberais], não têm corpo e nem decisões.


A sociedade perde o senso de dimensão de competição porque a reificação não afeta somente o trabalho produtivo na indústria, mas também os trabalhadores em seu papel de consumidor; não se reconhece a propriedade de pertencimento e social da mercadoria. Também, a reificação expropria dos “semi-capitalistas”, da “média” e “pequena burguesia” tal papel na produção, ou seja, não reconhecem sua inferioridade diante o real capital. Então assumem suas próprias experiências “semi-ditas” como propriedades reais do mercado.

 
1 A REIFICAÇÃO


A reificação (do latim res, que significa "coisa", traduzido do alemão Versachlichung ou Verdinglichung) é o processo social e ideológico pelo qual relações sociais entre pessoas assumem a aparente forma de relações entre coisas.

No pensamento marxista, a reificação descreve como o modo de produção capitalista transforma qualidades humanas, ações coletivas e vínculos sociais em propriedades "naturais" de objetos, mercadorias ou leis de mercado. E embora o termo técnico Verdinglichung tenha sido sistematizado com maior profundidade no século XX pelo filósofo Georg Lukács (3 de abril de 1885, em Budapeste, Hungria - 4 de junho de 1971, Budapeste) em História e Consciência de Classe (1923), as bases conceituais foram estabelecidas por Karl Marx, principalmente no Capítulo 1 de O Capital - Das Kapital - (1867). 

Marx desenvolve tal ideia a partir do conceito de Fetichismo da Mercadoria, ou seja, que no capitalismo, as pessoas trocam produtos no mercado com base no seu valor de troca (dinheiro). O valor de um sapato em relação a um casaco parece ser uma propriedade "física" ou "mágica" desses objetos; as pessoas tomam decisões baseadas nestes critérios de preço que parecem intrínsecos e imutáveis em questão de existência dos objetos. Isso parte da impressão fantasmagórica da mercadoria: tudo deve ter um preço, certo? E, ainda, independe de quão urgente é o valor de uso desses objetos ou serviços de modo que absolutamente tudo pode ser mercadoria, ou um ramo de investimento: água, comida, saúde, formatos, cores, nomes, etc.

Na verdade, a relação real ocorre entre o trabalho do sapateiro e o trabalho do alfaiate. O mercado esconde essa relação social por trás das coisas, fazendo parecer que os objetos têm valor em si mesmos.

Tal fenômeno opera em duas frentes simultâneas antitéticas:

1. A "coisificação" das pessoas.
2. A "personificação" das coisas.


A reificação dificulta que a classe trabalhadora perceba a origem da exploração, pois as desigualdades parecem decorrer do "funcionamento natural das coisas". Exemplificando, leis econômicas históricas e criadas pelo ser humano passam a ser vistas como "leis da natureza", inevitáveis e imutáveis (como a gravidade) e, dessarte, o trabalhador perde o controle sobre o processo produtivo e passa a ver o fruto do seu trabalho como uma força estranha que o domina.
  

1.1 A INSPIRAÇÃO PARA  A REIFICAÇÃO

 
A relação entre a reificação em Karl Marx e o conceito de alienação em Ludwig Feuerbach - filósofo alemão - (28 de julho de 1804, Landshut, Alemanha - 13 de setembro de 1872, Rechenberg (Nuremberg), Alemanha (na época, Império Alemão)  não é um simples reaproveitamento de ideias, mas uma transmutação ontológica e metodológica. Marx toma a estrutura do diagnóstico psicológico-religioso de Feuerbach e a projeta na anatomia material da sociedade capitalista, transformando um debate sobre a consciência humana em uma crítica contundente da reprodução social.

Para compreender Feuerbach, é preciso perceber como ele desmantela a teologia ao demonstrar que a divindade é, para ele, na verdade, a essência humana purificada, absolutizada e projetada para fora de si. O ser humano retira de si atributos reais - como a capacidade de amar, a inteligência e a criação - e os deposita em um ser transcendente - se podemos amar: Deus é todo amor; se podemos perdoar: Deus perdoa infinitamente; se valorizamos a bondade e a moralidade: Deus é completamente bom e é critério de ação. Ao fazer isso, estabelece-se um paradoxo existencial, haja visto que, quanto mais grandioso, perfeito e onipotente Deus se torna, mais insignificante, imperfeito e impotente o indivíduo [que o criara] se sente, como é afirmada na obra A Essência do Cristianismo (1841, p. 80):  “Deus e homem são extremos: Deus é o absolutamente positivo, a essência de todas as realidades, o homem é o simplesmente negativo, a essência de todas as nulações." . O sujeito histórico produz o seu próprio dominador e passa a contemplar a sua própria essência como uma força exterior e alheia que o subjuga. A alienação feuerbachiana é, portanto, uma inversão de sujeito e predicado, ocorrendo primordialmente no terreno da consciência e do espírito.

Tal interpretação é tão influente que o filósofo e filólogo Nietzsche (15 de outubro de 1844 em Röcken - 25 de agosto de 1900 em Weimar) usara como base para uma de suas principais críticas em três obras: Humano, Demasiado Humano (1878), A Gaia Ciência (1882), Genealogia da Moral (1887). A interligação entre Marx, Feuerbach e Nietzsche reside na apropriação do mecanismo da alienação religiosa - no qual o ser humano cria uma entidade transcendente, deposita nela suas melhores virtudes e acaba dominado pela própria criação -, vertendo-o para frentes filosóficas distintas: enquanto Feuerbach limita essa inversão ao campo da consciência ao propor um humanismo que substitui a adoração a Deus pelo culto à essência humana, Marx materializa a tese na economia ao demonstrar que a reificação é a alienação na qual o produto do trabalho se converte no Capital que coisifica o trabalhador e rege as relações sociais, e Nietzsche radicaliza o diagnóstico no terreno da psicologia e da moral ao apontar a projeção divina como sintoma de ressentimento e negação da vida, rejeitando tanto o consolo teológico quanto o otimismo humanista de Feuerbach para exigir a superação do próprio homem na criação de novos valores. 

Marx reconhece o caráter genial dessa mecânica de inversão, mas percebe a limitação do idealismo feuerbachiano. Para Marx, explicar como o ser humano se aliena na religião não resolve o problema fundamental: por que o ser humano precisa criar ilusões metafísicas? A resposta não está na mente, mas no modo como as pessoas produzem sua própria existência material. É exatamente nesse ponto que a alienação de Feuerbach se metamorfoseia na reificação (Verdinglichung) marxista.

No modo de produção capitalista, o processo de projeção descrito por Feuerbach deixa de ser uma abstração filosófica e torna-se a dinâmica concreta do cotidiano. O trabalhador empenha sua força vital, seu tempo e seu corpo na criação de uma mercadoria. Essa mercadoria, uma vez finalizada, é desconectada do seu produtor pela propriedade privada. A partir desse instante, ocorre a reificação: as propriedades humanas e a cooperação social depositadas no trabalho ganham a forma objetiva de "coisas" com valor próprio. O produto do trabalho ganha vida autônoma no mercado e retorna para o seu criador sob a forma de capital - uma força estranha, objetiva e soberana que dita o ritmo de vida, os horários e as condições do trabalhador.

A virada profunda operada por Marx é demonstrar que a reificação não afeta apenas a percepção das coisas, mas a totalidade das relações interpessoais. Sob o fetichismo da mercadoria, a sociedade passa a ser regida por uma lógica opaca em que as relações sociais entre seres humanos são mascaradas e vividas como relações materiais entre coisas, enquanto o mercado e as taxas de juros - que são meras abstrações e criações históricas da própria humanidade - adquirem o status de "sujeitos" dotados de vontades próprias e leis "naturais". O indivíduo deixa de se relacionar com seu semelhante como ser humano para se relacionar como mercadoria (força de trabalho à venda), enquanto os objetos produzidos passam a decidir o destino dos homens.

Enquanto em Feuerbach a superação da alienação se dava no plano do esclarecimento filosófico e da emancipação da consciência - bastando ao homem compreender que Deus é uma criação humana para reaver sua essência -, Marx argumenta que a reificação é uma ilusão objetiva, real e sustentada pela própria estrutura econômica. Não se desfaz a reificação apenas compreendendo-a racionalmente, assim como não se extingue o valor de uma moeda apenas descobrindo a sua origem social. A reificação só pode ser desfeita pela práxis revolucionária, isto é, pela transformação concreta e material das relações de produção que transformam sujeitos em objetos e objetos em sujeitos.

Dessa forma, a reificação marxista é o desdobramento terreno e radical da alienação de Feuerbach: a transferência do altar teológico para o altar do mercado, onde a humanidade não mais se ajoelha diante da imagem de Deus, mas diante do valor de troca, da mercadoria e do capital. Em Deuses Americanos (2001), Neil Gaiman pega exatamente essa mecânica sociológica e a traduz em termos de realismo fantástico: os Novos Deuses (a Globalização, a Mídia, a Tecnologia) são a personificação literária das mercadorias, das telas e dos mercados aos quais a humanidade se ajoelha diariamente porque “o nosso tempo é a nossa oferenda”, e esquecendo [a humanidade] que foi ela mesma quem os construiu. 

 
2 VALOR E PREÇO

 
A relação entre a diferenciação de preço vs. valor está no centro da teoria microeconômica e das estratégias de monopolização, pois quanto menor a competitividade de um mercado, maior é o poder da empresa de desvincular o preço do valor real do produto. E tais conceitos precisam ser internalizados de modo que seja possível como tais conceitos dissolveram-se na ideia pública e no seu papel efetivo fundamental das mercadorias.

A ideia de valor é fundamental para economia moderna e, em Marx, suas aplicações foram estudadas imediata e profundamente para ser plausível uma proposta de crítica ao capitalismo.


2.1 O VALOR

 

O conceito de valor de uso na teoria marxista diz respeito às qualidades materiais e à utilidade concreta que um objeto possui para satisfazer uma determinada necessidade humana, seja ela do estômago ou da fantasia. Trata-se do suporte físico da riqueza em qualquer sociedade histórica, independentemente de ser um regime tribal, feudal, socialista ou capitalista. Uma maçã tem o valor de uso de alimentar; um casaco, o de proteger contra o frio; um livro, o de instruir ou entreter. O valor de uso é inseparável das propriedades corpóreas do objeto e só se realiza e se efetiva no momento do seu consumo ou da sua utilização prática. Por ser rigorosamente qualitativo e subjetivo - atrelado às propriedades específicas da matéria e ao uso que o indivíduo faz dela -, o valor de uso não pode ser medido de forma puramente matemática nem comparado em termos quantitativos abstratos, pois não faz sentido lógico dizer quantas maçãs equivalem quantitativamente à utilidade estética de uma pintura.

No entanto, a grande virada da análise de Karl Marx ocorre ao examinar como o valor de uso opera especificamente sob o modo de produção capitalista. Dentro do capitalismo, a produção não é organizada com o objetivo primário de satisfazer as necessidades humanas por meio dos valores de uso, mas sim com o objetivo de produzir mercadorias voltadas para a troca e para a acumulação de lucro. Para que um objeto se torne uma mercadoria, ele precisa necessariamente possuir um valor de uso, pois ninguém compraria algo totalmente inútil; contudo, para o capitalista que o produz, o valor de uso não é o fim da produção, mas apenas o suporte material indispensável do valor de troca. O valor de uso converte-se em um mero veículo do valor, uma casca física que carrega a verdadeira substância buscada no mercado: o trabalho humano abstrato acumulado que se traduz em dinheiro.

Essa subordinação do valor de uso ao valor de troca gera uma das contradições fundamentais do capitalismo. Embora a capacidade produtiva da humanidade tenha se expandido a ponto de gerar uma abundância sem precedentes de bens úteis, essa riqueza só é disponibilizada para a sociedade se puder ser vendida com lucro. Quando há uma crise de sobreprodução, por exemplo, alimentos podem ser destruídos ou mantidos estocados enquanto pessoas passam fome; o valor de uso da comida (alimentar) é bloqueado e anulado porque a sua dimensão como valor de troca (gerador de lucro) falhara. Assim, enquanto o valor de uso expressa a relação direta e harmoniosa entre a natureza, a matéria e as necessidades da vida humana, o capitalismo impõe a supremacia da abstração do valor sobre a utilidade concreta, fazendo com que as coisas só tenham permissão para existir e circular se servirem à valorização do capital.

O conceito de valor de troca nasce da necessidade de explicar como duas mercadorias com qualidades materiais e valores de uso completamente diferentes - por exemplo, uma determinada quantidade de trigo e um par de sapatos - podem ser igualadas e trocadas no mercado em uma proporção matemática exata. Para que coisas tão heterogêneas em sua utilidade e forma física possam ser comparadas, é preciso que exista entre elas uma substância comum, algo que neutralize suas diferenças qualitativas. Essa substância comum, segundo Marx, não é o valor de uso, mas sim o fato de ambas serem produtos do trabalho humano. Na troca, as especificidades do trabalho concreto do sapateiro ou do agricultor são abstraídas, restando apenas o trabalho humano abstrato, ou seja, o dispêndio de energia, tempo e força de trabalho socialmente necessários para produzir aquela mercadoria. É a quantidade desse tempo de trabalho socialmente necessário que determina a grandeza do valor de uma mercadoria, sendo o valor de troca a forma sob a qual esse valor subjacente se manifesta objetivamente no mercado. 


2.2 O PREÇO 


A relação do valor de troca com a aparente "inutilidade" ou contradição do preço surge quando analisa-se a transição do valor de troca para a sua forma monetária, o dinheiro. O preço é a expressão monetária do valor, o nome em dinheiro dado ao trabalho abstrato contido na mercadoria. No entanto, o preço não é um reflexo mecânico e passivo do valor; ele introduz uma margem de autonomia e descolamento em relação ao tempo de trabalho real. Isso permite a existência de um fenômeno marcante no capitalismo: coisas que possuem um preço estabelecido no mercado, mas que não possuem valor no sentido estrito, por não serem frutos do trabalho humano. É o caso da terra virgem, de uma obra de arte única, da reputação de uma marca ou de uma concessão governamental. Essas entidades podem ser compradas e vendidas por somas elevadas porque o preço funciona como uma forma jurídica e monetária de apropriação, mas elas não contêm trabalho abstrato acumulado, demonstrando como a forma-preço pode se aplicar a coisas que são, do ponto de vista da teoria do valor-trabalho, "inúteis" enquanto depositárias de valor real.

Por outro lado, o preço também pode parecer "inútil" ou ilusório ao camuflar a verdadeira utilidade dos objetos em favor das oscilações da oferta e da demanda e da especulação financeira. Quando o valor de troca se consolida na forma de preço, a mercadoria completa seu processo de alienação: sua utilidade concreta para a vida humana (seu valor de uso) torna-se totalmente irrelevante para o sistema, a menos que sirva como um mero pretexto para a realização do preço em dinheiro. O valor de troca, ao se desdobrar em preço, absolutiza a troca quantitativa e transforma a utilidade das coisas em uma variável secundária, fazendo com que o mercado valide não a utilidade real de um bem para a sociedade, mas tão somente a capacidade monetária do comprador de realizar o preço e garantir a valorização do capital.

 
É através das relações de convencimento e de necessidade que se culmina um fator essencial do próprio de produção capitalista e, que neste caso, deve ser analisada cuidadosamente: a demanda. 

 

3 A DEMANDA

 

3.1 O PAPEL DA INDÚSTRIA CULTURAL NA OFERTA E PROCURA

 
A indústria cultural, tal como conceituada por Theodor Adorno -  filósofo, musicólogo e teorista social alemão (11 de setembro de 1903, Frankfurt - 6 de agosto de 1969, Visp - e Max Horkheimer - filósofo e sociólogo alemão (14 de fevereiro de 1895, Estugarda - 7 de julho de 1973, Nuremberga -, duas das principais figuras da Escola de Frankfurt, na obra intitulada Dialética do esclarecimento: esclarecimento como mistificação das massas (1947) em que está o artigo (1947, p.110), opera como o motor ideológico e subjetivo que ajusta a estrutura psíquica das massas às exigências de acumulação do capital, transformando a própria ideia de demanda no mercado. 

Aprofundar a relação entre a indústria cultural e a demanda exige analisar o mecanismo preciso pelo qual a reprodução do capital submete a subjetividade humana, transformando a própria formação do desejo em uma etapa da cadeia de valor.

No capitalismo monopolista e tardio, a contradição central da produção em massa reside na necessidade impreterível de garantir o escoamento ininterrupto das mercadorias. Se a produção é planejada em larga escala por grandes oligopólios, a demanda não pode ser deixada ao acaso do "livre-arbítrio" do consumidor. É aqui que a indústria cultural deixa de ser mera superestrutura ideológica ornamental para se converter em uma força produtiva direta e em uma instância de planejamento econômico. Ela opera a transição da alienação do trabalho para a alienação do consumo: a mesma padronização e divisão do trabalho aplicadas na fábrica são transferidas para a produção de bens culturais, adaptando o aparelho psíquico do trabalhador para que sua sensibilidade, atenção e tempo livre permaneçam subordinados à lógica da mercadoria.

A conversão da necessidade em demanda no mercado passa pela criação de um fetiche estetizado. Marx já apontava que a mercadoria oculta as relações sociais de produção sob uma fantasmagoria onde as coisas parecem ter vida própria; a indústria cultural radicaliza esse processo ao vender não apenas o objeto físico, mas a promessa de uma experiência, de uma identidade ou de um estigma de integração social. O convencimento de compra não funciona primariamente por convencimento racional, mas por um condicionamento reflexo e pela administração do afeto. A repetitividade das estruturas narrativas, os esquemas musicais preexistentes e o design voltado ao impacto visual contínuo geram uma atrofia da imaginação e da reflexão crítica. O indivíduo, esgotado pela rotina de trabalho, busca no entretenimento uma fuga que, contudo, é desenhada para devolvê-lo exatamente ao ponto de partida: a busca por alívio na compra do próximo bem simbólico ou material.

Nesse esquema, a demanda adquire uma natureza profundamente contraditória e administrada. Por um lado, ela precisa ser infinitamente expansível para absorver a superprodução de mercadorias; por outro, precisa ser perfeitamente previsível para reduzir os riscos de investimento do capital. A indústria cultural resolve essa equação por meio da falsa singularidade: oferece-se a ilusão de escolha e individualidade - pacotes de produtos segmentados para "estilos de vida" aparentemente opostos -, quando, na realidade, todos os produtos compartilham o mesmo núcleo padronizado. A demanda deixa de ser a expressão de carências humanas reais (como tempo de descanso autêntico, convivência comunitária, emancipação ou expressão artística livre) e passa a ser a projeção de necessidades heterônomas artificialmente induzidas. O consumidor não compra o que deseja, mas aprende a desejar aquilo que o mercado precisa vender.

Essa dinâmica estabelece um ciclo de obsolescência psicológica permanente. Para que a demanda efetiva aparente se mantenha aquecida, o prazer proporcionado pela mercadoria cultural ou pelo bem de consumo induzido deve ser estruturalmente insatisfatório. A indústria cultural promete a realização completa a cada lançamento, anúncio ou tendência, mas entrega apenas a promessa diferida, mantendo o indivíduo em um estado de perpétua carência. A demanda no mercado deixa de ser um indicador neutro de bem-estar ou de equilíbrio entre oferta e procura, revelando-se como o índice de eficácia de um sistema que colonizou o inconsciente coletivo para assegurar a autovalorização contínua do capital.

O fenômeno da indústria cultural tem implicações muito abrangentes como o surgimento de uma “indústria do hobbie”, “do it yourself”, em que são criados setores de venda para a atividades de lazer, enclausurando o trabalhador em um estado perpétuo de trabalho e satisfações fúteis. Tudo isso cria demandas previsíveis e cíclicas em atividades como a pintura - ao invés de criar arte o indivíduo é encorajado a reproduzir obras de arte famosas; o acampamento - o indivíduo perde a razão de estar ao ar livre e reduz a uma série de ritos de pré-cronogramas implícitos; ou a música - o indivíduo se contenta em apenas aprender melodias isoladas e nada além, sem história, sem disciplina, sem amor.

 
3.2 A DEMANDA NO SISTEMA

 

Aprofundar a compreensão da demanda no modo de produção capitalista exige afastar-se definitivamente da visão neoclássica que a trata como um dado comportamental exógeno ou como a mera soma das preferências individuais de consumidores livres. Na anatomia do capitalismo, a demanda é uma categoria social, historicamente determinada e intrinsecamente ligada às leis de movimento da acumulação do capital, operando como a mediação contraditória entre a produção e a circulação.

A determinação primária da demanda reside na estrutura de classes e na distribuição do produto social. Antes de se manifestar no mercado como ato de compra, a capacidade de consumo da sociedade é pré-configurada pela forma como a riqueza é apropriada. A classe trabalhadora, despossuída dos meios de produção, recebe pela venda de sua força de trabalho um salário que tende a gravitar ao redor do custo de sua reprodução social. Esse salário limita, de forma estrutural e insuperável, o teto da demanda por bens de consumo popular. Por outro lado, a fração da mais-valia que se converte em renda para a classe dominante direciona a demanda para bens de luxo e, sobretudo, para bens de capital (meios de produção e matérias-primas). A demanda não é, portanto, um reflexo do desejo humano abstrato, mas a tradução monetária das relações de exploração que constituem a base da sociedade.

O papel fundamental da demanda no ciclo do capital é permitir a metamorfose da mercadoria em dinheiro, processo que Karl Marx denominou como o "salto mortal" da mercadoria (O Capital; Ubu Ed., p. 188 (2023): “O salto da forma do valor de uso para a forma do valor é o salto mortal da mercadoria. Se ele falha, não é a mercadoria que é esborrachada, mas o proprietário da mercadoria.". O valor de uma mercadoria é determinado na esfera da produção pelo tempo de trabalho socialmente necessário incorporado a ela. No entanto, esse valor permanece apenas potencial até que a mercadoria seja vendida. A demanda efetiva é a instância de validação social desse trabalho. Se a demanda por um setor desmorona ou se a oferta supera drasticamente a capacidade do mercado de absorvê-la, o tempo de trabalho gasto naquela produção deixa de ser reconhecido como socialmente necessário. O valor contido no bem não se realiza, a mais-valia extraída do trabalhador não se converte em dinheiro e a cadeia de valorização do capital é interrompida, deflagrando perdas econômicas e potenciais falências.

Essa dinâmica expõe a contradição fundamental do capitalismo entre a tendência ilimitada à expansão das forças produtivas e a limitação restrita do poder de consumo das massas. O capital busca incessantemente maximizar a taxa de mais-valia reduzindo o custo da força de trabalho (salários), mas, ao fazê-lo, mina sistematicamente o poder de compra da maioria da população, que constitui a base do mercado consumidor para as próprias mercadorias produzidas. Essa contradição inerente gera a constante ameaça das crises de superprodução ou de subconsumo relativo.

Para postergar e mitigar essas crises estruturais, o capitalismo desenvolve mecanismos sofisticados de gestão da demanda. O primeiro deles é a expansão contínua do sistema de crédito. O financiamento da dívida privada permite temporariamente desvincular a capacidade de compra imediata do trabalhador da sua renda real, antecipando o consumo futuro para absorver a superprodução presente. O segundo mecanismo é a criação planejada de escassez e de obsolescência, tanto física quanto subjetiva - esta última impulsionada pela publicidade e pela indústria cultural -, que força o descarte prematuro e a substituição constante de produtos, gerando uma demanda artificialmente acelerada.

A demanda no capitalismo maduro desdobra-se em duas esferas interligadas: a demanda por meios de consumo, limitada pela reprodução da força de trabalho, e a demanda por meios de produção, impulsionada pela concorrência inter-capitalista que força as empresas a reinvestir constantemente parte do lucro em inovação tecnológica e maquinário. A dinâmica do sistema depende da manutenção de uma proporção harmoniosa entre esses dois setores. Todavia, como a produção sob o capitalismo é anárquica e guiada pela busca individual pelo lucro de firmas concorrentes, o desequilíbrio entre a oferta gerada pela capacidade produtiva e a demanda efetiva disponível não é uma exceção temporária, mas uma condição permanente que conduz o sistema a ciclos periódicos de expansão e colapso.


4 A NECESSIDADE DE INOVAÇÃO

 
Aprofundar a relação entre inovação tecnológica e demanda exige examinar como o progresso técnico altera a própria composição orgânica do capital e como a contradição entre a esfera da produção e a esfera da circulação é exacerbada no capitalismo maduro.

Na produção, a inovação tecnológica é o principal mecanismo para a extração de mais-valia relativa (O Capital; Ubu Ed., p. 389-398 (2023). Quando o capital introduz inovações que elevam a produtividade social do trabalho nos setores que produzem bens de consumo popular (ou insumos para eles), o valor desses bens diminui. Consequentemente, reduz-se o tempo de trabalho necessário para a reprodução da força de trabalho, permitindo que a jornada de trabalho se volte proporcionalmente mais para a geração de mais-valia. Todavia, a nível individual, o capitalista que inova busca o lucro extraordinário: ao produzir abaixo do tempo de trabalho socialmente necessário do seu setor, ele vende a mercadoria pelo preço de mercado baseado na média social e recolhe uma margem superior. Essa busca ininterrupta obriga os concorrentes a adotarem as mesmas tecnologias, generalizando o novo padrão produtivo e exigindo constantes ciclos de reinvestimento em máquinas e insumos (demanda por meios de produção). 


O “nó cego” do sistema reside no fato de que essa mesma tecnologia poupadora de trabalho altera a proporção entre trabalho morto (maquinário, matérias-primas) e trabalho vivo (força de trabalho humana). Como apenas o trabalho vivo gera valor e mais-valia, a elevação da composição orgânica do capital gera uma tendência à queda da taxa de lucro. Para compensar essa tendência, o capital precisa expandir agressivamente a massa absoluta de lucro, o que exige a produção e a venda de um volume incomensuravelmente maior de mercadorias. Cria-se, assim, uma pressão imensa sobre a esfera da circulação: o mercado precisa absorver uma avalanche de bens gerados por indústrias altamente automatizadas.

O modo de produção capitalista é o único da história que trabalha com excedentes.

A contradição se estabelece com toda a força na capacidade de absorção dessa oferta. A inovação tecnológica que substitui trabalhadores por máquinas expulsa a força de trabalho do processo produtivo ou rebaixa os salários pela via do exército industrial de reserva. A base social da demanda por bens de consumo (a renda da massa trabalhadora) é comprimida justamente no momento em que a capacidade de oferta da sociedade atinge picos históricos. O capitalismo responde a essa assimetria estrutural por meio de três movimentos de readequação da demanda:

Produção de novos ramos de consumo: o capital não se limita a produzir objetos para necessidades existentes; ele utiliza a tecnologia para criar ramos industriais inteiramente inéditos. Bens antes inexistentes são convertidos em necessidades vitais para a reprodução social (como os dispositivos digitais e redes de comunicação), convertendo novas dimensões do cotidiano humano em setores rentáveis de demanda.
Aceleração do tempo de rotação do capital: a inovação é aplicada diretamente para encurtar o tempo entre a produção e a venda. Através da obsolescência programada (planejamento técnico para limitação da vida útil) e da obsolescência perceptiva (induzida pelo design e pela indústria cultural), o capital acelera a velocidade com que uma mercadoria é descartada e substituída. Reduzir o ciclo de vida do produto é a forma encontrada pelo sistema para multiplicar a frequência da demanda efetiva.
Financeirização e expansão do crédito: diante do descompasso entre a massa de mercadorias produzidas e o poder de compra real proveniente dos salários, a tecnologia bancária e financeira instrumentaliza a expansão do crédito ao consumidor. O crédito atua como uma ponte artificial que antecipa a demanda futura para resolver o colapso de realização no presente. O trabalhador passa a demandar mercadorias não apenas com base na sua renda atual, mas comprometendo a sua força de trabalho futura por meio do endividamento sistêmico.

A inovação tecnológica expõe a assincronia fundamental do modo de produção capitalista: a tecnologia expande a capacidade humana de transformar a natureza e gerar abundância de forma quase ilimitada, mas a lógica da valorização do capital exige que essa abundância continue sendo filtrada pela restrição da demanda solvente. A inovação, em vez de libertar a humanidade do trabalho penoso, converte-se no vetor que intensifica as crises de sobreacumulação, nas quais a sociedade se vê afogada em mercadorias de alta tecnologia sem que a maioria da população possua os meios monetários para realizá-las no mercado.

 
4.1 LUCRO, ACUMULAÇÃO E CRISE

 
No livro Economia Brasileira: Lucro Acumulação e Crise (1984), Luiz Carlos Bresser-Pereira - economista  e cientista social e político, nascido em 30 de junho de 1934 (São Paulo - SP) - analisa o papel da inovação tecnológica inserindo-a diretamente no coração da dinâmica de acumulação e das contradições cíclicas do capitalismo, com especial atenção às especificidades do desenvolvimento brasileiro. Para o autor, a inovação técnica não é um mero fator externo de modernização ou um elemento neutro de progresso produtivo, mas sim o motor fundamental que impulsiona a elevação da produtividade do trabalho e a busca incessante pela taxa de lucro. No ambiente de concorrência capitalista, o empresário é impelido a introduzir inovações nos métodos de produção para obter lucros extraordinários temporários - alcançados quando o seu custo individual de produção fica abaixo do custo médio de mercado -, o que deflagra um processo contínuo de transformação das forças produtivas em toda a economia.

Todavia, essa dinâmica gera uma transformação profunda na composição do capital. A inovação tecnológica manifesta-se predominantemente através do aumento da intensidade de capital por trabalhador, aumentando a proporção de capital fixo (máquinas, equipamentos e instalações) em relação à força de trabalho empregada. Bresser-Pereira argumenta que esse processo de acumulação com progresso técnico gera uma tendência histórica à elevação da relação capital-produto ou ao aumento da composição orgânica do capital. À medida que a tecnologia substitui o trabalho vivo por trabalho morto corporificado em máquinas, surge uma pressão descendente sobre a taxa de lucro global da economia. Para contrarrestar essa tendência e manter a rentabilidade do capital em níveis atraentes para novos investimentos, a taxa de mais-valia - ou o grau de exploração da força de trabalho - precisa aumentar progressivamente, estabelecendo um conflito distributivo permanente entre salários e lucros.

A inovação tecnológica desdobra-se, assim, em uma contradição central para a sustentabilidade da acumulação de capital. Por um lado, o avanço técnico eleva a capacidade produtiva da sociedade de forma exponencial, permitindo a oferta de volumes cada vez maiores de mercadorias. Por outro lado, a tendência à compressão salarial e ao desemprego tecnológico gerados pela substituição de mão de obra debilita a expansão do poder de compra da massa trabalhadora. Na estrutura da economia brasileira, caracterizada historicamente por um padrão de acumulação dependente, essa fricção ganha contornos específicos: a absorção de tecnologia estrangeira muitas vezes ocorre via importação de bens de capital intensivos, o que gera estrangulamentos no balanço de pagamentos e aprofunda a heterogeneidade estrutural do mercado de trabalho local.

Essa assimetria entre a capacidade ampliada de oferta gerada pelas inovações e a limitação da demanda efetiva transforma a tecnologia em um vetor de instabilidade e de crises cíclicas. Bresser-Pereira demonstra que, nos períodos de expansão econômica, a onda de inovações e de investimentos em capital fixo acelera o crescimento; contudo, à medida que a taxa de lucro começa a cair pelo aumento do custo do capital e pela incapacidade de o mercado consumidor absorver a totalidade da produção, o incentivo para novos investimentos despenca. A inovação tecnológica, que inicialmente funcionava como solução para alavancar a produtividade e o lucro, converte-se em fator de sobreacumulação de capital. A crise surge como o momento de desvalorização coercitiva do capital e de reorganização das condições de rentabilidade, evidenciando que, na perspectiva de Bresser-Pereira, a inovação no capitalismo é um processo inerentemente conflituoso, caracterizado por surtos de progresso seguidos por fases de ajustamento e crise.

 
4.1.1 A superposição tecnológica

 
Carlos Bresser examina o papel da inovação técnica inserindo-a diretamente na dinâmica concorrencial do capital e na luta pelo lucro extraordinário. Para o autor, a inovação tecnológica não ocorre de maneira uniforme ou homogênea no tecido industrial; ao contrário, ela é o vetor que introduz uma assimetria contínua entre as empresas e entre os diferentes setores produtivos, estabelecendo uma hierarquia temporária na qual indústrias tecnologicamente avançadas se sobrepõem e subordinam indústrias tecnologicamente atrasadas.

O ponto de partida dessa análise reside no mecanismo de diferenciação dos custos individuais de produção em relação ao custo médio do mercado. Quando uma empresa ou uma indústria específica introduz uma inovação tecnológica - seja pelo aperfeiçoamento do maquinário, seja pela reorganização do trabalho -, ela eleva a produtividade física do trabalho acima da média do seu setor. Como o preço de mercado da mercadoria continua sendo regulado pelo tempo de trabalho socialmente necessário (isto é, pelas condições médias de produção), a unidade inovadora consegue produzir a um custo unitário inferior e vendê-la pelo preço corrente de mercado. Essa diferença momentânea de inovação converte-se em um lucro extraordinário ou sobrelucro, que funciona como a recompensa direta ao capitalista pioneiro e como o motor da acumulação acelerada desse setor.

Essa vantagem tecnológica momentânea desdobra-se em uma relação de sobreposição e domínio de uma indústria sobre outra, o que ocorre em duas dimensões principais:

A sobreposição inter-firmas dentro do mesmo setor: a indústria que detém o monopólio temporário da inovação passa a ditar as regras da concorrência. Ao obter margens de lucro superiores, ela acumula capital em um ritmo muito mais veloz do que suas concorrentes atrasadas. Esse diferencial de rentabilidade permite-lhe expandir sua escala de produção, investir mais em pesquisa, conceder descontos e capturar parcelas crescentes do mercado. As indústrias retardatárias entram em um processo de desvalorização relativa: suas margens de lucro são comprimidas e, para não serem eliminadas do mercado, veem-se forçadas a depreciar seu capital fixo antigo e a adotar a nova tecnologia. A inovação atua, assim, como um mecanismo de centralização e concentração do capital, no qual a indústria inovadora absorve ou destrói a indústria defasada.
A sobreposição inter-setorial e a transferência de valor: na escala macroeconômica e inter-setorial, Bresser demonstra que a diferença momentânea de inovação altera a equalização da taxa de lucro. Os setores de maior intensidade tecnológica e maior composição orgânica do capital (frequentemente ligados a bens de capital e bens de consumo duráveis) conseguem estabelecer preços de produção que capturam parte da mais-valia gerada em setores menos desenvolvidos e mais intensivos em mão de obra. A indústria inovadora não apenas aufere o valor que ela própria produz com maior eficiência, mas também impõe uma assimetria na troca que subjuga os setores tradicionais, subordinando a dinâmica de investimento de toda a economia à sua própria lógica de expansão.
Contudo, Bresser enfatiza o caráter essencialmente transitório e dialético dessa sobreposição. O lucro extraordinário decorrente da inovação técnica não pode durar indefinidamente. A existência de sobrelucros em uma indústria atrai a atenção dos concorrentes e atua como uma força magnética para novos investimentos. À medida que a nova tecnologia é difundida, copiada ou absorvida pelo restante do setor, a produtividade média da indústria é elevada e o custo médio de produção cai. Como consequência, o preço de mercado desce para se readequar ao novo tempo de trabalho socialmente necessário, dissolvendo o lucro extraordinário.

A erosão do sobrelucro encerra a fase de vantagem momentânea e repõe a contradição estrutural do sistema. Ao generalizar-se a inovação, o setor como um todo passa a operar com uma composição orgânica de capital mais elevada (mais máquinas e menos trabalho vivo por unidade produzida). A taxa média de lucro do setor sofre uma pressão descendente, exigindo um grau mais elevado de exploração da força de trabalho ou o lançamento de uma nova onda de inovações tecnológicas para reabrir o ciclo.

No contexto específico da formação econômica brasileira analisado por Bresser, essa dinâmica de sobreposição tecnológica ganha traços de dependência e heterogeneidade estrutural. As indústrias nacionais, que frequentemente operam na retaguarda da fronteira tecnológica internacional, absorvem inovações de forma tardia via importação de bens de capital. Isso faz com que a sobreposição de indústrias estrangeiras ou multinacionais sobre os setores locais seja ainda mais acentuada e duradoura, gerando um padrão de acumulação no qual o progresso técnico não se traduz de forma homogênea em ganhos sociais, mas sim em ciclos recorrentes de concentração de renda, estrangulamento de capital e reestruturação produtiva coercitiva. 


4.1.1.1. A equação algébrica da taxa de lucro e a composição do capital

 
Para demonstrar o impacto do progresso técnico sobre a rentabilidade, Bresser parte da formulação clássica da taxa de lucro (r) expressa em termos do capital constante (C), capital variável (V) e mais-valia (S):

r = S​/C+V

de modo que ao dividir o numerador e o denominador por V, torna-se possível reescrever a equação em função da taxa de mais-valia (m′=S/V​) e da composição orgânica do capital (q=C/V):

r = m′/q+1​.

Através dessa relação funcional, é demonstrada matematicamente que se a inovação tecnológica eleva q (aumento do peso dos meios de produção em relação à força de trabalho) a uma taxa superior ao crescimento de m′ (aumento da taxa de exploração), a derivada da taxa de lucro em relação ao tempo torna-se negativa (dr/dt ​< 0), provando a tendência descendente da taxa de lucro resultante do progresso técnico intensivo em capital.

 
4.1.1.2. A formalização do lucro extraordinário

 
Para demonstrar a sobreposição de uma empresa ou indústria inovadora sobre as demais, é possível utilizar uma equação de custo unitário diferencial. Se o valor social (preço de mercado) de uma mercadoria é determinado pela média do setor:

P = cm​+vm​+sm​

ao passo que “cm”​ e “vm”​ representam os custos médios de capital constante e variável, e “sm”​ a mais-valia média. A firma que introduz a inovação passa a operar com custos individuais reduzidos (ci​+vi ​< cm​+vm​). O lucro extraordinário por unidade produzida (Le​) é demonstrado pela diferença:

Le ​= P − (ci​+vi​+si​) = (cm​+vm​+sm​) − (ci​+vi​+si​).

Como “ci​+vi ​< cm​+vm​”, deduz-se algebricamente que Le ​> 0, esse sobrelucro positivo constante permite à empresa inovadora uma taxa de acumulação gi​ = Ii/Ki​​​ estritamente maior do que a taxa média de acumulação do setor (gm​), provando matematicamente a centralização do capital e a sobreposição técnica e econômica do setor inovador.

 
4.1.1.3. O modelo de relação capital-produto (K/Y) e o progresso técnico


Analisando a contabilidade macroeconômica, Bresser-Pereira recorre aos modelos de crescimento e distribui o produto nacional (Y) entre salários (W) e lucros (L), de modo que Y=W+L. Definindo a taxa de lucro em termos macroeconômicos como a razão entre o massa de lucros (L) e o estoque de capital (K):

r = L/K ​= (L/Y)/(K/Y)

em que L/Y é a participação dos lucros no produto e K/Y é a relação capital-produto (medida da intensidade de capital).

Através dessa equação, demonstra-se algebricamente três cenários do progresso técnico:

1. Progresso técnico neutro (tipo Harrod): K/Y permanece constante; r varia diretamente com a parcela dos lucros L/Y.
2. Progresso técnico poupador de capital: K/Y diminui, elevando a taxa de lucro r.
3. Progresso técnico dispendioso em capital (característico do capitalismo maduro e dependente): K/Y aumenta. Matematicamente, para que a taxa de lucro r se mantenha constante quando K/Y cresce, a participação dos lucros L/Y precisa crescer na mesma proporção, o que exige a compressão da participação dos salários (W/Y = 1− L/Y). Isso prova a necessidade matemática da intensificação do conflito distributivo sob acumulação com inovação intensiva em capital.

 

4.1.1.4. A taxa de rotação do capital e a circulação

 
Por fim, Bresser incorpora a taxa de rotação do capital (n) na determinação da taxa anual de lucro (ra​):

ra​ = n (S/C+V).

Demonstra que as inovações tecnológicas aplicadas à esfera da circulação e logística aumentam a velocidade de rotação (n > 1), o que permite matematicamente compensar uma queda na taxa de lucro por ciclo de produção individual (S/C+V). Essa demonstração formal justifica por que o capital busca inovações não apenas na produção física, mas na aceleração do tempo de vendas e obsolescência dos produtos para sustentação do lucro anual.

 
5 O NÍVEL COMPETITIVO

 
O aumento da relação capital-produto e a compressão da taxa de lucro ilumina diretamente o fenômeno do fechamento massivo de pequenas e médias empresas, revelando que a falência dessas unidades não decorre meramente de erros de gestão individual, mas de uma coerção estrutural do próprio modo de produção capitalista. A inovação tecnológica atua como uma barreira de entrada e um mecanismo coercitivo de seleção de mercado. Quando as grandes corporações introduzem tecnologias de ponta, automatizam processos e expandem sua infraestrutura produtiva, elas elevam drasticamente o volume de capital fixo necessário para operar em escala competitiva. Para a pequena e média empresa, que opera com reduzida capacidade de financiamento e baixa disponibilidade de capital monetário, acompanhar esse ritmo de investimento em máquinas, softwares e logística torna-se financeiramente inviável, o que as impede de reduzir seus custos individuais de produção na mesma proporção das grandes indústrias.

Essa disparidade tecnológica gera uma transferência direta de valor e um esmagamento das margens de rentabilidade das empresas de menor porte. Uma vez que o preço de mercado de uma mercadoria passa a ser determinado pelas condições médias de produção - as quais são progressivamente redefinidas pelos conglomerados que detêm a tecnologia mais avançada -, o custo individual de produção do pequeno empresário fica sistematicamente acima do preço de venda viável no mercado. Enquanto os grandes capitais capturam lucros extraordinários decorrentes de sua alta produtividade, os pequenos e médios estabelecimentos enfrentam uma taxa de lucro em queda livre ou até negativa. Sem margem para absorver flutuações econômicas e incapazes de realizar o "salto mortal da mercadoria" com a frequência necessária para cobrir seus custos fixos, as unidades menores são empurradas para um estado permanente de vulnerabilidade financeira, culminando no encerramento de suas atividades.

Paralelamente, a dinâmica de compressão salarial apontada como tentativa de conter a queda da taxa de lucro geral afeta duplamente o ecossistema das pequenas e médias empresas. Como a introdução de tecnologias poupadoras de mão de obra comprime a massa de salários e debilita o poder de compra da maioria da população, a demanda efetiva por bens e serviços de consumo comum contrai-se ou estabiliza-se em patamares baixos. Como as pequenas e médias empresas dependem vitalmente do mercado consumidor interno e local para realizar seu valor no mercado, a escassez de demanda solvente atinge prioritariamente esse setor, que não dispõe das ferramentas do crédito em grande escala, do marketing massivo ou da diversificação de mercados internacionais para sustentar suas vendas diante do enfraquecimento do poder de compra popular.

Em última instância, o fechamento contínuo de pequenas e médias empresas representa a manifestação empírica da lei da concentração e centralização do capital catalisada pelo progresso técnico. O processo de destruição e desvalorização do capital em momentos de crise, não atinge todas as empresas de forma homogênea; ele atua como um expurgo concentrado que liquida os capitais mais fracos e tecnologicamente defasados. Ao falirem, as pequenas empresas liberam sua fatia de mercado e seus ativos desvalorizados para serem absorvidos pelas grandes corporações, que consolidam seu monopólio ou oligopólio. A inovação tecnológica, portanto, longe de democratizar as oportunidades de negócios, opera como um vetor constante de canibalização econômica, transformando o tecido empresarial em uma estrutura cada vez mais centralizada e hostil à sobrevivência dos pequenos e médios produtores.

 
5.1 OS TRÊS NÍVEIS DE MERCADO


A articulação dos três níveis de mercado na obra Economia Brasileira: Lucro, Acumulação e Crise, revela como a heterogeneidade estrutural da economia brasileira não é um mero resíduo do passado colonial, mas sim uma exigência funcional do próprio padrão de acumulação do capitalismo industrial e dependente. A coexistência desses três níveis estabelece uma hierarquia de extração e transferência de valor na qual os setores superiores drenam a mais-valia e a renda geradas nos setores inferiores.


5.1.1 O nível marginal e a reserva de subsistência e rebaixamento salarial 


O nível marginal representa o estrato inferior da estrutura de mercado, englobando a economia informal, as microempresas de subsistência, os trabalhadores autônomos e as unidades produtivas familiares; um elemento indispensável para o funcionamento da acumulação dependente.

Este nível distingue-se por uma composição orgânica do capital virtualmente nula, onde o processo de trabalho baseia-se exclusivamente no trabalho vivo não qualificado ou de baixíssima densidade técnica. Não há acumulação de capital propriamente dita neste setor: a renda gerada destina-se estritamente à reprodução física dos próprios trabalhadores e de suas famílias.

A existência do setor marginal cumpre funções vitais para a sustentação dos lucros nos níveis superiores. Primeiro, ele funciona como a expressão visível do exército industrial de reserva. O contingente de trabalhadores marginalizados pressiona o mercado de trabalho formal, mantendo os salários médios da economia em patamares baixos e permitindo uma elevação da taxa de mais-valia nos setores competitivos e oligopolistas. Segundo, o setor marginal provê bens de consumo extremamente baratos e serviços informais de baixo custo que reduzem o valor da força de trabalho no país. Ao baratear o custo de vida dos trabalhadores urbanos, o setor marginal permite que as empresas do setor formal paguem salários nominais menores sem provocar o colapso imediato da reprodução da força de trabalho.


5.1.2 O nível competitivo e o elo frágil da acumulação

 
O nível competitivo é formado por pequenas e médias empresas concentradas nos setores industriais tradicionais (têxtil, calçados, alimentos), no comércio varejista e em serviços especializados. Ao contrário do nível superior, este setor é caracterizado por uma baixa composição orgânica do capital e pela ausência de barreiras significativas de entrada.

Neste nível, a concorrência ocorre de forma pulverizada por meio do mecanismo clássico de preços. Como as pequenas e médias empresas não possuem escala para investir na fronteira tecnológica nem capacidade financeira para sustentar guerras comerciais prolongadas, elas operam como tomadoras de preço. A produtividade do trabalho neste setor cresce a ritmos significativamente mais lentos do que no setor oligopolista, o que comprime suas margens de rentabilidade e coloca suas firmas sob a ameaça constante do "salto mortal da mercadoria".

A função estrutural do setor competitivo no capitalismo dependente é dupla e contraditória: por um lado, ele absorve a maior parcela da força de trabalho formal da economia; por outro, ele sofre uma dupla pressão econômica. De um lado, é pressionado pelo setor oligopolista, que lhe impõe preços elevados para insumos e equipamentos; de outro, é limitado pela baixa capacidade de compra da população, resultado da compressão salarial sistêmica. Nas fases de recessão, este setor funciona como o grande amortecedor das crises, sofrendo liquidações em massa e permitindo que o capital centralizado absorva suas parcelas de mercado.


5.1.3 O nível monopolista/oligopolista e o centro de valorização do capital


O nível monopolista e oligopolista constitui o núcleo dinâmico da economia e o principal vetor da inovação tecnológica. Composto por corporações multinacionais, conglomerados privados nacionais e empresas estatais de grande porte, este setor concentra a produção de bens de capital, insumos intermediários pesados e bens de consumo duráveis.

A característica definidora deste nível é a sua elevada composição orgânica do capital. Como essas empresas operam com um volume massivo de capital fixo (máquinas, automação, infraestrutura) por trabalhador, a barreira de entrada para novos concorrentes torna-se praticamente intransponível. A consequência direta dessa concentração é a capacidade de as firmas oligopolistas abandonarem a concorrência por preços. Elas estabelecem preços administrados - fixados acima do preço de produção médio - para garantir a manutenção de uma taxa de lucro monopolista constante, imune às oscilações da concorrência clássica.

Além disso, este nível atua como um polo de atração e retenção de valor. Por meio de mecanismos de preços relativos favoráveis, o setor oligopolista captura a mais-valia produzida nos setores de menor intensidade tecnológica. Quando o setor oligopolista vende máquinas e insumos caros para o setor competitivo e compra deste bens de consumo não duráveis ou serviços a preços aviltados, ocorre uma transferência permanente de valor do setor tradicional para o setor monopolista, garantindo a este último uma taxa de acumulação acelerada.


Esses três níveis não funcionam de maneira autônoma; eles formam uma teia integrada de exploração e transferência de valor:

O fluxo do valor: o setor marginal barateia a reprodução da força de trabalho para o setor competitivo; o setor competitivo gera a mais-valia em estado bruto através do uso intensivo de mão de obra e repassa parte substancial dessa mais-valia para o setor oligopolista via compra de insumos e tecnologia.
A vulnerabilidade às crises: durante os ciclos de retração da taxa de lucro, o setor oligopolista reestrutura sua produção e expulsa trabalhadores. Esses trabalhadores demitidos são empurrados para o setor competitivo (gerando queda nos salários formais) ou diretamente para o setor marginal (expandindo a informalidade).
A consolidação do subdesenvolvimento: o resultado dessa articulação tripartite é a perpetuação do subdesenvolvimento como uma forma específica de capitalismo, na qual a modernização tecnológica do setor oligopolista convive necessariamente com a superexploração do trabalho no setor competitivo e com a marginalidade massiva na base da sociedade. 

 

5.1.3.1 Os oligopólios

 
Quando o capital maduro introduz inovações poupadoras de mão de obra e intensivas em maquinário, ele eleva bruscamente a composição orgânica do capital e exige um volume mínimo de investimento inicial que se torna proibitivo para o pequeno e médio produtor. As grandes corporações passam a operar com custos unitários significativamente inferiores à média do setor, obtendo lucros extraordinários que aceleram sua taxa de acumulação. Em contrapartida, as pequenas e médias empresas, operando com técnicas defasadas e sem acesso a linhas de crédito volumosas, encontram-se presas a custos individuais de produção mais elevados. Como o preço de mercado é balizado pela produtividade média que as grandes empresas continuamente redefinem, a margem de lucro das pequenas unidades é ejetada para patamares insustentáveis, achatando sua rentabilidade e inviabilizando sua reprodução simples.

Essa disparidade de custos deflagra um processo coercitivo de seleção econômica que culmina no fechamento massivo dos estabelecimentos de menor porte. No entanto, o encerramento dessas empresas não significa a simples eliminação de sua capacidade produtiva do mapa econômico; ele opera como a pré-condição para a centralização do capital. Quando as pequenas e médias empresas falem ou entram em concordata, seus ativos - instalações, máquinas, carteiras de clientes e fatias de mercado - sofrem uma desvalorização violenta. As grandes corporações, capitalizadas e operando com margens mais folgadas, aproveitam os períodos de crise para incorporar esses ativos a preços aviltados. A liquidação do pequeno capital atua, portanto, como uma drenagem de mercado que consolida a fatia de vendas nas mãos de um número cada vez mais reduzido de grandes firmas, transformando setores originalmente concorrenciais em estruturas oligopolistas consolidadas.

A formação dos oligopólios altera qualitativamente as regras do jogo econômico, bloqueando a entrada de novos concorrentes e cristalizando a sobreposição das grandes indústrias sobre o restante da economia. Uma vez estabelecido o oligopólio, as poucas firmas dominantes passam a exercer um controle consciente sobre os preços e sobre a taxa de introdução de novas tecnologias. Elas abandonam a guerra de preços aberta - que destruiria suas próprias margens de lucro - e passam a competir por meio da diferenciação de produtos, da publicidade e do controle das cadeias de distribuição. Isso cria barreiras de entrada praticamente intransponíveis para novos empreendedores, garantindo que o sobrelucro decorrente da escala e da tecnologia se perpetue como uma renda monetária monopolista. O fechamento das pequenas e médias empresas deixa de ser um evento cíclico e converte-se em um traço estrutural permanente, empurrando o pequeno capital sobrevivente para setores de baixíssima produtividade, serviços precarizados ou para uma condição de subcontratação e dependência direta dos próprios oligopólios.

 

CONCLUSÃO

 
A partir do resgate das premissas analíticas formuladas no decorrer do estudo, a tese da livre concorrência revela-se empiricamente insustentável e teoricamente autocontradições. Conforme demonstrado pela crítica marxista, a dinâmica imanente do modo de produção capitalista não caminha rumo ao equilíbrio concorrencial, mas sim em direção à contínua concentração e centralização do capital. Ao longo de todo o desenvolvimento histórico, a concorrência opera como o seu próprio vetor de aniquilação: a busca pela mais-valia relativa impele a introdução ininterrupta de inovações tecnológicas que elevam a composição orgânica do capital e a relação capital-produto. Esse imperativo de modernização exige volumes de investimento inicial proibitivos para pequenos e médios produtores, transformando a tecnologia em uma barreira de entrada intransponível que ejeta do mercado as unidades de menor porte. A liquidação e o fechamento massivo dessas firmas menores, frequentemente rotulados sob o manto ideológico da ineficiência de gestão, cumprem a função estrutural de desvalorizar e transferir ativos para o domínio do grande capital, gestando as estruturas oligopolistas e monopolistas que restrigem o mercado em corporações globais.  

A análise do capitalismo tecno-burocrático e dos três níveis de mercado elucida como essa ausência de competitividade real opera em uma teia integrada de extração e transferência de valor. A convivência entre o setor oligopolista, o setor competitivo e o setor marginal marginalizado não expressa um estágio transitório de desenvolvimento, mas uma exigência funcional para a reprodução do capital. O setor marginal barateia os custos de reprodução da força de trabalho urbana, enquanto o setor competitivo tradicional gera e repassa a mais-valia ao setor monopolista dominante, que por sua vez fixa preços administrados imunes à dinâmica da concorrência clássica por preços. O Estado desenvolvimentista e suas instâncias regulatórias, nesse quadro, não figuram como árbitros neutros ou observa

dores distantes, mas como garantidores ativos das condições jurídicas, financeiras e políticas necessárias para sustentar as assimetrias de poder e mitigar os efeitos da tendência à queda da taxa de lucro.  

Conclui-se, portanto, que a competitividade do mercado, nos moldes defendidos pela economia clássica e neoliberal, opera tão somente como um artefato ideológico. O que se observa na realidade concreta do capitalismo contemporâneo é o domínio absoluto dos oligopólios, do rentismo e das corporações que reificam a existência humana e sequestram as instâncias de representação social e econômica. Ao desvelar a mecânica de alienação que transforma o produto do trabalho humano em uma força soberana que subjuga seus próprios criadores, o estudo reafirma que a superação desse fetiche não decorre da mera elucidação teórica, mas exige a transformação material das relações sociais de produção.

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Informações

  • Data:
  • 23/09/2026
  • Horário:
  • 17:00
  • GALLAGHER, Wayder. A Mistificação da Competitividade do Mercado. 2026.
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  • RESUMO
  • O presente artigo analisa o fenômeno da "falsa competitividade" no sistema capitalista contemporâneo, contrapondo o discurso liberal de livre mercado com as dinâmicas reais de acumulação e regulação econômica. A pesquisa parte da crítica teórica de Karl Marx  (Tréveris, 5 de maio de 1818 - Londres, 14 de março de 1883) sobre a tendência à concentração e centralização do capital, demonstrando como a livre concorrência gera inevitavelmente estruturas oligopolistas e monopolistas que distorcem o conceito da economia clássica de mercado competitivo. Em seguida, incorpora-se a perspectiva de Luiz Carlos Bresser-Pereira sobre o "capitalismo tecno-burocrático" e o papel do Estado desenvolvimentista, evidenciando como as elites econômicas frequentemente capturam instâncias regulatórias e utilizam políticas públicas para mascarar assimetrias de poder sob a retórica da eficiência de mercado. Por meio de uma abordagem qualitativa e de revisão bibliográfica comparada, o estudo conclui que a tese da livre competição opera primordialmente como um construto ideológico. Na prática, a competitividade real é continuamente mitigada por barreiras à entrada, poder político corporativo e rentismo, restando ao Estado não o papel de mero espectador, mas de garantidor das condições que sustentam a aparente concorrência.
  • Palavras-chave: Falsa Competitividade. Karl Marx. Luiz Carlos Bresser-Pereira. Concentração de Capital. Estado Desenvolvimentista. Ideologia de Mercado.
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  • ABSTRACT
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    This paper analyzes the phenomenon of "false competitiveness" in the contemporary capitalist system, contrasting liberal free-market rhetoric with the actual dynamics of economic accumulation and regulation. Grounded in Karl Marx's (Trier, May 5, 1818 – London, March 14, 1883) theoretical critique regarding the tendency toward the concentration and centralization of capital, the research demonstrates how free competition inevitably engenders oligopolistic and monopolistic structures that distort the classical economic concept of a competitive market. Furthermore, it incorporates Luiz Carlos Bresser-Pereira’s perspective on "techno-bureaucratic capitalism" and the role of the developmental state, highlighting how economic and state elites frequently capture regulatory bodies and leverage public policies to mask power asymmetries under the guise of market efficiency. Utilizing a qualitative approach and a comparative literature review, the study concludes that the thesis of free competition operates primarily as an ideological construct. In practice, actual competitiveness is continuously eroded by barriers to entry, corporate political power, and rentierism, leaving the state not in the role of a mere spectator, but as the primary guarantor of the conditions that sustain the illusion of competition.
  • Keywords: False Competitiveness. Karl Marx. Luiz Carlos Bresser-Pereira. Concentration of Capital. Developmental State. Market Ideology.
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  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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  • ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 1ª edição. RJ: Zahar, 1985.
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  • KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Coleção Os Pensadores. Nova Cultural: SP, 1999.

  • LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. 1ª Edição (Coleção Tópicos). Livraria Martins Fontes/WMF Martins Fontes: SP: 2023. 

  • MARX, Karl. O Capital. 1ª edição. SP: Ubu, 2023.
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  • NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. 1ª Edição. SP: Companhia das Letras, 2001.

  • NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. 1ª Edição. SP: Companhia das Letras, 1998.
  •  
    NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. 1ª Edição. SP: Companhia das Letras, 2005.
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  • Expectativa de Público:
  • Ponto de Encontro:
  • Não informado.
  • Tipo de Evento:
  • Público

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