Gosto se discute, sim
Sobre o Evento
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
1 A ANTINOMIA DO GOSTO EM KANT
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
RESUMO
Ao contrário do que afirma o dito popular, gosto se discute, sim. Existe na filosofia uma disciplina específica para tais reflexões, e seu nome é muito conhecido: trata-se da Estética. Vê-se a palavra designando frequentemente coisas como "estilo", "beleza" ou "forma", mas o termo vem do substantivo grego aisthesis e significa basicamente apenas "sensação". No sentido comum, os termos "estética", "filosofia da arte" ou "teoria do belo" são usados de maneira intercambiável. A discussão sobre o tema existe praticamente desde o início da filosofia ocidental. A Estética propriamente dita, todavia, é uma disciplina relativamente recente. Sua origem remonta à publicação da obra Aesthetica (1750-1758), do filósofo alemão nascido em Berlim Alexander Gottlieb Baumgarten (17 de julho de 1714 - 27 de maio de 1762). Portanto a Estética é recente em questões como matéria filosófica, mas em questões discursivas não, remonta a Platão (428 Antes de Cristo - 348 Antes de Cristo), por exemplo, com reflexões sobre a "filosofia da arte". Sendo o objetivo conferir, principalmente com a crítica de Kant, que nem todo o juízo de gosto é realmente pessoal ou indiscutível, mas que na verdade é um fenômeno advindo de muitos outros: sociais ou pessoais, físicos ou metafísicos.
Palavras-chave: Gosto. Belo. Juízo. Bom. Agradável.
ABSTRACT
Contrary to the popular saying, "there's no accounting for taste," discussions about taste do exist. In philosophy, there is a specific discipline for such reflections, commonly known as Aesthetics. Often used to denote things like "style," "beauty," or "form," the term originates from the Greek noun "aisthesis," which essentially means "sensation." In ordinary usage, the terms "aesthetics," "philosophy of art," or "theory of beauty" are employed interchangeably. The discussion on this subject has existed practically since the beginning of Western philosophy. Aesthetics as a distinct discipline, however, is relatively recent. Its origins can be traced back to the publication of the work Aesthetica (1750-1758) by the German philosopher Alexander Gottlieb Baumgarten (July 17, 1714 - May 27, 1762), born in Berlin. Therefore, Aesthetics is recent as a philosophical topic, but not in terms of discourse, with discussions dating back to Plato (428 BC - 348 BC), for instance, with reflections on the "philosophy of art." The aim is to demonstrate, particularly with Kant's critique, that not all judgments of taste are truly personal or indisputable, but rather stem from numerous other phenomena: social or personal, physical or metaphysical.
Keywords: Taste. Beauty. Judgement. Good. Pleasant.
INTRODUÇÃO
Um dos autores mais notáveis nesta discussão é Immanuel Kant (22 de abril de 1724 - 12 de fevereiro de 1804), filósofo alemão, fundador da “Filosofia Crítica" e da "Crítica do Juízo", o qual parte a discussão na diferenciação do "bom", do "belo" e do "agradável". Essa distinção feita por Kant é fundamental para entender que gosto se discute, sim; e principalmente na sua obra A Crítica da faculdade do juízo (1790) - em alemão, Kritik der Urteilskraft -, sendo a Estética a melhor manifestação na qual a filosofia kantiana inverte a relação entre finito e infinito, entre o homem e Deus. Neste terceiro aspecto, que é o aspecto sensível do homem, será particularmente analisado a relação com as sensações, ou seja, a Estética.
Vale considerar que a percepção do "belo" hoje é totalmente diferente da maneira que os gregos, há 2.500 anos atrás, enxergavam-no. As obras de arte tinham uma função majoritariamente sagrada. Entre os gregos por exemplo, é a ordem cósmica exterior e superior aos homens, assim cada obra de arte era dita como um pequeno universo, uma miniatura do cosmos. Para Platão, por exemplo, o "belo" não se justifica apenas em termos de criação subjetiva, nem em função do efeito que o mesmo possa administrar nas sensações particulares de um indivíduo: a ideia do "belo" é objetiva e submetida a medida e a proporção. Como nos templos gregos, seguidos por uma rígida metrificação de medida e proporção.
No contexto grego, a obra de arte tem um sentido de objetividade, não exprime tanto a inspiração pessoal do artista, mas exprime a razão cósmica do próprio universo, da qual o artista modestamente aparece como intermediador entre os homens e os Deuses. A ideia atual do artista como criador e a exigência de originalidade, é um fenômeno mais recente remontando a ideia cartesiana de Tábula Rasa. O "belo" hoje não é mais descoberto, como se já existisse no mundo objetivo independentemente de nós, mas sim deve ser criado, inventado pelo próprio artista.
A mudança da perspectiva do dever do artista reflete também no espectador, dando origem à discussão de gosto, a qual é discutida. O termo aparece pela primeira vez nas obras do jesuíta e escritor pertencente ao Século de Ouro Espanhol Baltasar Gracián y Morales (8 de janeiro de 1601 - 6 de dezembro de 1658) para designar a capacidade subjetiva para distinguir o conveniente do inconveniente, o “belo” do “feio”. Isso seria dizer que diferentemente dos antigos, o "belo" não designa um conjunto de propriedades pertencentes à própria obra de arte; os primeiros tratados de Estética vão tratá-la com questões subjetivas, reservadas especificamente ao que agrada o nosso o gosto, a nossa sensibilidade, a aisthesis.
A exemplo de como isso passou a ser representado na Modernidade, Charles-Louis Secondat, conhecido pelo seu título de Barão de Montesquieu (18 de janeiro de 1689 - 10 de fevereiro de 1755), crítico francês, principalmente da teoria política, na obra O Gosto (1753), leva a discussão em perspectiva muito mais psicológica do que necessariamente metafísica.
São esses diferentes prazeres de nossa alma que formam o objeto do gosto como o "belo". As fontes do "bom", do "belo" e do "agradável" estão portanto em nós mesmos. E, buscar suas razões é buscar as causas dos prazeres em nossa alma. (MONTESQUIEU. O Gosto. 1ª edição. Iluminuras: SP, 2005. p. 56).
No trecho, a ruptura à antiguidade é clara, porém não é súbita, já que em primeiro momento não desaparece a ideia de que o artista deve investigar a harmonia; a ruptura será total ao afirmar que esta harmonia não é exterior ao homem. E o que o Kant posteriormente irá mostrar é que essa harmonia se encontra na faculdade subjetiva em nós, de modo que não é porque o objeto é intrinsecamente belo que ele nos agrada, mas porque ele fornece um certo tipo de prazer relacionado mais à organização sobre a nossa própria subjetividade humana, do que à encarnação de uma ordem superior a nós.
Justamente por essa mudança de percepção entre a antiguidade e a modernidade, que surge um problema do qual os gregos não tinham conhecimento: o critério de gosto. A Crítica da faculdade do juízo, a terceira crítica de Kant, vai fazer uma distinção entre o "verdadeiro", o "bom" e o "agradável". Sendo o "bom" e o "agradável" diametralmente opostos ao respeito dos critérios, estando possível, ao menos na maioria dos casos, a distinção entre o “verdadeiro” do “falso” como na matemática e na ciência, enquanto que o "agradável" permanece sempre subjetivo - tornando-se impossível provar que o juízo de uma pessoa está falso se ela não gosta de colocar creme no café por exemplo (o que se refere ao agradável). Contudo, o caso do "belo" é mais complexo, porque discutimos como se fosse possível comprovar que uma obra de arte é bela ou não, mesmo conscientes em última instância, na incapacidade de chegar em uma conclusão definitiva sobre o assunto.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (15 de outubro de 1844 - 25 de agosto de 1900), filósofo alemão conhecido pela crítica à moralidade (principalmente na obra O Anticristo (redigida no verão-outono de 1888), a ele é atribuída, em sua clássica satírica, a frase de que gosto e cores não se discutem e mesmo assim ninguém faz outra coisa.
A questão do gosto, se possível defini-la assim, remete ao surgimento da questão da subjetividade moderna, resultado da ruptura com o mundo antigo, os quais não duvidavam da objetividade do "belo" (definida como um microcosmo). Surgindo para nós hoje um problema: se o "belo" é subjetivo, se é questão de gosto e subjetividade, e não mais harmonia da natureza exterior a nós, como explicar-nos-ia o consenso entre as grandes obras de arte? Como compreender o fato de que alguns autores se tornam clássicos e atravessam vários séculos e diferentes civilizações? A Área para a Corda Sol (1730), do compositor Johann Sebastian Bach (31 de março de 1685 - 28 de julho de 1750) é exemplo de que a arte encontra um consenso praticamente universal. Só que com a subjetividade da arte, o nascimento do gênio e do gosto, a antiga filosofia do "belo" acedeu lugar a uma estética, a uma teoria dos efeitos produzidos por certas criações subjetivas sobre a nossa sensibilidade igualmente subjetiva. O que coloca a questão dos critérios ou da discutibilidade do gosto.
Sobre o "belo", sobre os critérios do gosto, se o mesmo é algo puramente subjetivo, como poderia haver um consenso, uma concordância ao menos na maioria em relação a algumas obras de arte ou da natureza? É praticamente incontestável, por exemplo, a beleza das praias de Fernando de Noronha (ilhas de Pernambuco, Brasil) ou dos Alpes Suíços (estendidos da Suíça até Alemanha, Áustria, França, Itália, Liechtenstein, Mônaco e Eslovênia), assim como a beleza artística das obras de Homero (928 Antes de Cristo - 898 Antes de Cristo), poeta grego responsável por compilar dois dos mais famosos poemas épicos da Grécia Antiga: Ilíada e Odisseia (fins do século VIII Antes de Cristo - início do século VII Antes de Cristo), ou de William Shakespeare (26 de abril de 1564 - 23 de abril de 1616), dramaturgo e poeta inglês autor de tragédias famosas como Hamlet (1599 - 1602), Otelo (1604), Macbeth (1606) e Romeu e Julieta (1597), ou então das pinturas italianas. Tais obras, que se não em adesão universal, ao menos ultrapassam muito além das fronteiras de suas épocas e culturas.
Karl Marx (5 de maio de 1818 - 14 de março de 1883), filósofo e revolucionário alemão conhecido pela crítica ao capitalismo principalmente com O Manifesto Comunista (1848), retrata a questão na introdução da Contribuição à crítica da economia política (1859).
A dificuldade não reside em compreender que a arte e a epopeia grega estão ligadas às certas formas de desenvolvimento. A dificuldade reside no fato de que elas ainda nos proporcionam prazer artístico e ainda valem em certo sentido como norma e padrão inalcançáveis. (MARX, Karl. Introdução à Crítica da Economia Política. 5ª edição. WMF Martins Fontes - POD: SP, 2016. p. 5).
O que Marx abordara era o fato de que as epopeias gregas são faces de um estado de desenvolvimento cultural, econômico a determinadas relações sociais. Mas que paralelamente há dificuldade na questão do porquê estas obras redigidas em sociedades tão diferentes ainda proporcionam prazer estético.
A discussão torna-se complexa hoje diante do relativismo contemporâneo, haja vista que com o surgimento das Ciências Sociais principalmente, tudo é considerado relativo de época, de classe, de lugar, de gênero e outros fatores determinantes. Então nós somos progressivamente habituados à ideia de que não existem valores universais, absolutos, eternos. A Pós-modernidade, o período em que vivemos, é o período da crise do universal, e essa tendência procura também fazer caminho na filosofia. A discussão estética, no entanto, toma o caminho inverso, no sentido se é possível argumentar em matéria de arte, os critérios do "belo", os quais parecem insustentáveis ao senso comum.
A argumentação estética também apresenta uma característica central comum a toda filosofia do período moderno: como fundamentar a objetividade sobre a subjetividade? E aqui mais uma vez se mostra a tensão em relação ao individual e o geral, entre o subjetivo e o objetivo: o consenso entre as obras de arte nos une mais do que qualquer outro assunto. David Hume (7 de maio de 1711 - 25 de agosto de 1776), um dos principais filósofos empiristas e escocês, por exemplo, observara com certa ironia sobre termos mais acordo com as obras de Homero e Shakespeare do que a validade da física de Galileu Galilei (15 de fevereiro de 1564 - 8 de janeiro de 1662), o importante astrônomo, físico e matemático italiano sobre o Heliocentrismo e de René Descartes (31 de março de 1596 - 11 de fevereiro de 1650), o filósofo, matemático e físico francês conhecido pelo método da razão. Mas como isso seria possível, se ao falar do "belo" e do gosto, estaríamos no coração, no cerne da própria subjetividade.
Ao fim do século XVIII, três grandes respostas foram dispostas aos critérios da "beleza".
1. A primeira chamada de Classicismo Francês, herança do racionalismo de René Descartes, vai dizer que o "belo" é uma ilustração de uma ideia verdadeira como uma encarnação de uma verdade da razão na matéria sensível. Uma relação direta entre o que é "belo" e o que é “verdadeiro”. A universalidade do bom gosto, então, teria uma relação direta com o objetivo que é desvelado, revelado pela razão, de modo que o gênio clássico, ele não é tanto aquele que inventa, mas aquele que desvela e descobre de maneira científica.
2. No Empirismo Inglês, colocando bastante ênfase na matéria, já que são empiristas, a beleza não é tão somente a ilustração de uma ideia verdadeira, de uma verdade da razão como queria o Classicismo antes dele. A beleza reside, ao contrário, no próprio objeto concreto que de forma material agrada os nossos órgãos sensoriais. Então o consenso sobre as obras de arte, nessa perspectiva, pelo fato de que todos os seres humanos possuem os mesmos órgãos sensoriais: o que agrada um deve agradar ao outro também, de modo que a concordância universal não seria nenhuma surpresa. Porém uma das contradições dessa proposição, seria a retomada da antiga arte culinária, então o deslocamento seria da concordância para a discordância, divergência: se a concordância é justificada por termos os mesmos órgãos sensoriais a qual são submetidos à obra de arte, agora a dis concordância torna-se o problema: porque discordamos então um do outro se temos os mesmos órgãos sensoriais submetidos. A proposta do Empirismo Inglês ainda permanece ligada à ideia clássica de objetividade do "belo", só que não mais na objetividade da razão como no modelo cartesiano, mas na hipótese de uma estrutura psicobiológica comum a toda humanidade.
3. Ainda, a questão do encastelamento da discussão sobre os especialistas, ou seja, àqueles que seriam de certa maneira cientistas da área.
A terceira proposição vem justamente de Kant, em A Crítica da Faculdade do Juízo. O filósofo alemão assenta as bases da composição de gosto que ultrapassa entre essa oposição entre racionalismo e empirismo tão pouco o "verdadeiro" como queria o Classicismo, tampouco o "agradável" como queria o Empirismo. Esta nova composição vai se ancorar no fato social, e de que as pessoas discutem sim sobre o gosto, como afirmara Nietzsche.
Em matéria de puro gosto não é possível fazer demonstrações, porque aqui não se trata de ciência ou de verdade, só que por outro lado o que irá distinguir do "agradável" e se distanciar da arte culinária é a possibilidade de discutir sobre ele como se fosse possível dar argumentos a favor ou contra um juízo de gosto.
Na perspectiva kantiana, o "belo" é tomado como intermediário entre a natureza e o espírito, entre o inteligível e o sensível, uma reconciliação entre ambos. Como se o "sensível" em si fizesse sinais sobre ele em direção às significações inteligíveis. A música pura, barroca, clássica, com o início, um desenvolvimento e um fim, podendo ser triste, alegre, tumultuada ou representar qualquer outro estado da alma. Uma sonata, por exemplo, é geralmente colocada como estrutura ABBA (cíclica). Mas a questão, porém, é que nós conceituamos tudo isso de maneira puramente sensível, a música pura é totalmente material, mas ainda assim faz algum sentido - o que a torna inteligível.
1 A ANTINOMIA DO GOSTO EM KANT
Um ponto de partida na análise do Kant é a concepção de que cada um tem o seu gosto, mas essa afirmação confunde o "belo" com o "agradável", como seu gosto fosse uma questão meramente subjetiva que não dependesse da adesão de outras pessoas.
Uma segunda concepção vulgar que impulsionará Kant, é de que gosto não se discute. Tal posição parte do pressuposto de que o julgamento do gosto, mesmo que tivesse uma pretensão à universalidade, não seria possível demonstrar através de provas, apoiadas em argumentos científicos, um juízo de gosto.
Em terceiro ponto, Kant toma noção de algo que tanto Classicismo quanto o Empirismo admitiram: de que gosto se discute, sim, o que não entra em discordância com o ponto anterior. Não há uma contradição entre o ponto de que gosto não se discute e de que gosto se discute, pelo fato de Kant mostrar que há uma diferença entre uma argumentação científica para uma demonstração conceitual e uma concepção que visa tão somente um acordo hipotético e frágil em relação a um objetivo "belo". Então por outro lado, a ideia de discussão se opõe à primeira ideia colocada: porque se cada um tem o seu gosto, mas ainda assim é possível discutir sobre o tal, isso significa que o indivíduo precisa transcender a esfera monástica do cogito, sair de si mesmo, de seu universo fechado e sair para uma subjetividade coletiva.
A terceira crítica de Kant vai tentar resolver a questão em passos fenomenológicos, em tratar as contradições realmente existentes na consciência estética, para incitar reflexão, e considerando que a reflexão também é algo subjetivo do próprio sujeito, a sensação é de que é impossível provar a validade de nossos julgamentos estéticos, podendo portanto legitimar a discussão sobre.
Julgamento de gosto se manifesta em uma razão comunicativa intersubjetiva através de um alargamento tanto do objeto quanto do sujeito. O fato de que discutimos a experiência estética é índice de que consideramos a experiência estética comunicável ao contrário da discussão culinária ou do artesanato porque a discordância na área estética elimina diálogo: se o indivíduo afirma que não gosta de sorvete de morango, a discussão não tem precedentes, mas se o indivíduo afirma por outro lado que as pinturas de Leonardo da Vinci (15 de abri de 1462 - 2 de maio de 1519) o pintor, escultor, cientista, engenheiro, anatomista, matemático, escritor e arquiteto italiano, não são belas, a situação é outra. Mesmo que a experiência estética não seja fundada em conhecimento científico, ou que a comunicação a que ela induz jamais seja garantida, a questão é que nós ainda discutimos sobre o gosto. E a estética como matéria filosófica investiga como isso é possível e quais são os critérios do "belo" e do gosto.
O juízo do gosto na percepção do Kant se funda sobre um conceito indeterminado, a maneira que a solução do problema vai nesse sentido: a beleza evoca as ideias da razão presentes em todos os seres humanos e por isso ela pode transcender a subjetividade particular e suscitar um senso comum: o objeto dela é ao mesmo tempo sensível e intelectual, é a reconciliação contingente da natureza e do espírito e é fruto da própria natureza.
O fundamental para entendermos que gosto se discute, sim, é sabermos a distinção entre o "bom", o "belo" e o "agradável".
O essencial para considerarmos um objeto belo, a nossa representação não se relaciona a objetos através do entendimento para conhecê-lo, mas ao próprio sujeito em sua capacidade de imaginação e na habilidade de sentir prazer ou desprazer no mesmo. Juízo de gosto não é um juízo de conhecimento ou lógico, mas é um juízo estético.
O “agradável”, o "belo" e o "bom" designarão três capacidades do gosto, o qual nós representamos objetos e suas relações.
1. "Agradável" é aquilo que causa prazer. A agradabilidade é pertencente aos seres racionais e irracionais.
2. "Belo" é aquilo que simplesmente agrada. A beleza é pertencente somente aos seres humanos, ou seja, nutridos de sensibilidade e razão - o que exclui seres metafísicos que teoricamente seriam nutridos de razão mas não de sensibilidade.
3. E "bom" é aquele que é calculado e avaliado, no qual um valor objetivo é colocado. O "bom" é pertencente somente aos seres racionais, metafísicos ou não.
Dessas três formas de regozijo, de satisfação interior em relação ao objeto, somente o gosto pelo "belo" é desinteressado, já que nem os sentidos nem a razão o impelem a nada.
CONCLUSÃO
O "agradável" é unicamente a sensibilidade, a opinião pessoal, não cabe discussão em provar ou desaprovar o juízo de outrém neste quesito, sendo "tolice" discuti-lo, afirma Kant - a afirmação de que “gosto cada um tem o seu” se encontra correta, apenas quando se trata de sensibilidade, do "agradável".
Não é necessário chamar de "belo" algo que simplesmente nos agrada, já que o "belo" necessita de uma concordância universal, o que induz a crer que tal afirmação é esperada também por todos, julgando não só por ela e também pelos outros, atribuindo uma característica ao objeto, necessitando de discussão.
Em questão de "bom", é necessário ter ideia do que aquele objeto deveria ser ou proporcionar. Como um remédio amargo, que pode ser bom no sentido objetivo ao que ele deveria proporcionar: a manutenção da saúde, mas não é agradável talvez ao gosto, mais especificamente ao paladar. Seu alicerce objetivo deve ser sólido para que então a característica seja devidamente colocada, nesse sentido, uma música, por exemplo, não pode ser boa.
Dessarte, o gosto e seus critérios são totalmente discutíveis, e justamente o motivo dessa concordância quase universal em algumas obras de artes e naturais que levanta a questão da sua propriedade, de fazer-nos sentir o mesmo prazer. Sendo o "belo" o independente de época, de cultura, de vivência pessoal, etc.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMGARTEN, Alexander Gottlieb. Aesthetica. 1ª edição. SP: Nabu Press, 2014.
BAUMGARTEN, Alexander Gottlieb. Baumgarten. Coleção Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1973-75.
KANT, Immanuel. A Crítica da Faculdade do Juízo. 3ª edição. SP: Forense Universitária, 2012.
KANT, Immanuel. Immanuel Kant. Coleção Os Pensadores. SP: Nova Cultural, 1999.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. 5ª edição. SP: WMF Martins Fontes - POD, 2016.
MONTESQUIEU. O Gosto. 1ª edição. SP: Iluminuras, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Nietzsche. Coleção Os Pensadores. SP: Nova Cultural, 1999.
PORFÍRIO, Francisco. Friedrich Nietzsche. Mundo Educação. [S. l.]. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/autor/francisco-porfirio/104. Acesso em: 21 out. 2023.
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- Ao contrário do que afirma o dito popular, gosto se discute, sim. Existe na filosofia uma disciplina específica para tais reflexões, e seu nome é muito conhecido: trata-se da Estética. Vê-se a palavra designando frequentemente coisas como "estilo", "beleza" ou "forma", mas o termo vem do substantivo grego aisthesis e significa basicamente apenas "sensação". No sentido comum, os termos "estética", "filosofia da arte" ou "teoria do belo" são usados de maneira intercambiável. A discussão sobre o tema existe praticamente desde o início da filosofia ocidental. A Estética propriamente dita, todavia, é uma disciplina relativamente recente. Sua origem remonta à publicação da obra Aesthetica (1750-1758), do filósofo alemão nascido em Berlim Alexander Gottlieb Baumgarten (17 de julho de 1714 - 27 de maio de 1762). Portanto a Estética é recente em questões como matéria filosófica, mas em questões discursivas não, remonta a Platão (428 Antes de Cristo - 348 Antes de Cristo), por exemplo, com reflexões sobre a "filosofia da arte". Sendo o objetivo conferir, principalmente com a crítica de Kant, que nem todo o juízo de gosto é realmente pessoal ou indiscutível, mas que na verdade é um fenômeno advindo de muitos outros: sociais ou pessoais, físicos ou metafísicos.
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